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A arte de ser grande e de transformar a química interna das pessoas com depressão

Responsáveis pela iniciativa “A Arte de Ser Grande”, Rodrigo Bastos e Montserrat Gasull Sanglas falam sobre a importância do lúdico em nossas vidas

Montserrat e Rodrigo em um dos encontros promovidos pela “A Arte de Ser Grande”

No último artigo da série Setembro Amarelo, listei 15 filmes que abordam a depressão de maneiras diferentes, mostrando como o cinema pode abrir os olhos da sociedade e ajudar na conscientização sobre a depressão. Mas será que a arte pode ajudar no tratamento da doença?

Criada em 2009, a iniciativa “A Arte de Ser Grande” defende que sim!

Fundada pelo psicólogo e mestre em Ciências Sociais, Rodrigo Bastos, a empresa oferece oficinas, workshops e palestras focadas no aprimoramento humano e com uma abordagem única: através das brincadeiras.

Rodrigo sempre foi um psicoterapeuta apaixonado pelos processos dinâmicos mais artísticos, como a psicodrama, a ludoterapia, a arteterapia, a musicoterapia e o teatro terapêutico. Como fala no livro “O Clown Terapêutico”, ele descobriu com a Gestalt-Terapia que a arte poderia sim tratar enfermidades mentais, e começou a colocar esse ideal em prática com “A Arte de Ser Grande”.

Ao lado de sua sócia/esposa, Montserrat Gassul Sanglas, ele tem mudado a vida de muitas pessoas pelo Brasil, mostrando como a palhaçaria, as piadas e o brincar podem nos impactar intensamente.

Tive a oportunidade de bater um papo com Rodrigo e Montserrat e fiz um compilado das principais falas sobre os conceitos da “A Arte de Ser Grande” e também sobre o impacto que o trabalho pode ter em pessoas depressivas. Confira agora e reflita sobre a importância da arte e do lúdico em sua vida!

As brincadeiras são recorrentes nos eventos da “A Arte de Ser Grande

O que é a Arte de Ser Grande?

A arte de ser grande é um convite pra uma busca, um convite paradoxal para a mudança. A busca por crescer. Sendo que nós pensamos o conceito de crescimento como algo que tem a ver a abrir mão do que se tem ou querer o que não se tem. Ser grande é uma busca que faz com que você possa se engrandecer por dentro, através de procuras que podem fazer você abrir mão das coisas ou ter mais coisas. 

Muitas vezes, quando crescemos, plantamos um jardim que não nos pertence. Então “A Arte de ser Grande” convida para procurarmos quais são as sementes que temos dentro de nós, que não fizemos brotar, e fazer elas brotarem.

Portanto, “A Arte de Ser Grande” é uma empresa que faz esse convite através de workshops, oficinas, imersões e experimentos vivos que unem a psicologia à arte, mais especificamente ao lúdico. Um lúdico voltado para os adultos. Além disso, nós buscamos nos transformar. Nós somos algo, mas buscamos transformar nós mesmos. 

O livro Clown Terapêutico relaciona muito a figura do palhaço com autoconhecimento. Como surgiu a ideia de juntar palhaçaria com psicologia?

Na nossa busca por ferramentas lúdicas que dialogassem com os adultos, nós encontramos o palhaço. Um personagem circense que funciona como um facilitador da brincadeira para o adulto, que muitas vezes tem dificuldade de brincar. Temos um público humano diverso. Jovens tímidos, empresários querendo aumentar sua potência, uma professora que quer aprender a ter domínio de um grupo, alguém que tem medo de falar em público, artistas que querem aprender a arte do improviso, entre outros. Nós não buscamos a infantilização do adulto, mas sim um reencontro com a criatividade que pode potencializar todas essas pessoas. 

E o palhaço é um ser humano que tem o nariz vermelho porque cai no chão, porque cai da cadeira, porque se machuca. E aí o nariz sangra. O nariz vermelho do palhaço é um nariz quebrado, que está jorrando sangue. O nariz reflete o sangue do palhaço. E o palhaço revela a dor, revela as vergonhas, e aprende a compartilhar suas desgraças. 

O palhaço fala de si, expõe a si e se mostra. Ele se revela. Ele não aponta para outro e nem faz piada com o outro. O palhaço é generoso, tanto que se coloca como instrumento do riso e da graça. E se num primeiro momento ele pode ter esse papel de expor os nossos fracassos, de mostrar qualidades que poucos reconhecem, o palhaço também revela aquilo que tem de bonito. Muitas vezes é mais difícil mostrar nossos poderes do que expor nossos fracassos. 

Montserrat senta no colo de um dos participantes das dinâmica da “A Arte de Ser Grande”.

Qual é o impacto que vocês causam na vida das pessoas?

A pessoa precisa estar disposta a se impactar. Ela precisa estar disponível e vulnerável, pois ela vai abrir a mente e mergulhar na experiência. Fazemos todo um processo pra que a pessoa possa receber tudo, mas acreditamos que nós não vamos fazer nada na vida da pessoa, pois ela vai ser a responsável por tudo na vida dela, incluindo o possível impacto positivo do nosso trabalho. Nós acreditamos que as pessoas têm muitos poderes, inclusive o de se impactar e de modificar a própria vida a partir disso. 

Por termos vários tipos de trabalho, os impactos causados por esse convite à transformação são diferentes. Trabalhamos em grupo para que as pessoas tenham contato com as próprias verdades, pois são elas que fazem com que você olhe para si e aceite quem você é. Pra que elas possam surgir, nós temos jogos e conceitos que estimulam a criatividade, a liberdade e a nossa também a nossa capacidade de colocar limites nas coisas.  

Pessoas saem da nossa oficina e nos dias seguintes tomam decisões ou atingem objetivos que eram muito desejados. Algumas largam uma relação abusiva, outras pedem demissão, etc. Já tivemos até casos de mulheres que conseguiram engravidar. Essas pessoas tiveram coragem. Nossa transformação oferece a oportunidade para que elas tenham a força para mudar. 

A depressão é sempre um assunto muito comentado no mês de setembro. Como é a relação de pessoas depressivas com os conteúdos e as experiências da Arte de Ser Grande?

Existem vários níveis de depressão, e pessoas dos mais diversos níveis nos procuram muito pela alegria que nós mostramos através do palhaço e do lúdico, pois elas acreditam que o riso pode ser curativo. Porém, durante os trabalhos, elas descobrem um universo muito maior do que só a “cura. Descobrem, por exemplo, como lidar com essa dor de uma forma mais leve. Muitas delas se sentem culpadas por estarem depressiva, e essa ideia também acaba sendo alterada. 

Ao mesmo tempo, algumas querem estar perto de nós. Desejam estar no grupo, mas de uma forma mais silenciosa e isolada, exatamente por estarem em um estágio mais avançado da doença. Elas têm vontade de mudar, mas ainda não possuem energia pra isso.  

Constantemente, a sociedade medicalizada só vê a química, os remédios, como único tratamento para a depressão. Em um processo lúdico, no entanto, ela encontra no acolhimento uma forma de tratamento. Que não é químico, mas que transforma a química interna de cada uma das pessoas. 

Mesmo quando está sem a maquiagem e as roupas de palhaço, Rodrigo utiliza conceitos da clownterapia para mudar as vidas das pessoas.

Tem algum relato sobre uma pessoa com depressão impactada pela “A Arte de Ser Grande” que vocês poderiam compartilhar?

Certa vez uma mulher começou a frequentar nossos encontros por pressão familiar. Ela tinha mais de 50 anos e estava com um câncer em estado terminal que fez com que ela desenvolvesse um quadro depressivo bem sério. Após muita insistência dos filhos, ela resolveu dar uma chance para “A Arte de Ser Grande”. 

No início ela era monossilábica, apesar de muito educada, e demonstrava que não queria estar ali, mas estava fazendo aquilo pela família. No entanto, após um dos encontros, ela deixou escapar que antigamente ela era muito bagunceira, que adorava um mal-feito. Gostava de pegar os filhos na escola e levar para passear no meio do dia, de pregar peça nas crianças, nas vizinhas e até mesmo no marido. Como Clownterapeuta, aquilo foi uma pérola pra mim, Rodrigo.

No encontro seguinte eu lancei uma brincadeira pesada e sugeri que ela fizesse o pagamento antecipado do próximo mês. Ela, naturalmente, perguntou:

“ Você quer que eu pague antecipado pq acha que vou morrer?”

E começou a rir. Rir muito. Ela saiu rindo e contou para os filhos, que acharam um absurdo eu brincar com aquilo. Mas ela adorou, porque alguém mexeu com a dor dela, tanto que ela disse para eles:

“Ele me provocou enquanto todo mundo só me olhava com pena”

Depois disso ela foi se empolgando, mas toda brincadeira tem efeito colateral. E o efeito colateral mais comum é fazer ela sentir vontade de brincar. Ela estava totalmente deprimida, mas começou a brincar com os netos da mesma forma que brincava com os filhos. Ela queria voltar a ser quem ela era. Uma pessoa bricalhona. 

As semanas passaram, ela brincou muito, mas a doença foi chegando cada vez mais forte. E em um dos nossos últimos encontros ela disse uma das frases mais impactantes da história da “A Arte de Ser Grande”:

“Eu cheguei aqui com duas doenças: um câncer terminal e uma depressão. E eu quero dizer que vou morrer só de um câncer, pois da depressão eu estou curada”

Na opinião de vocês, depressão pode ser tratada como frescura?

Depressão é doença. Depressão é patalogia. Depressão joga pra baixo. Depressão aniquila. Depressão mata. Depressão está longe de ser frescura. Nossa sociedade olha, às vezes, com um olhar preconceituoso para quem sofre com a depressão. É uma das doenças que mais assolam a humanidade e que, muitas vezes, é analisada de uma maneira leiga ou apenas de uma forma química.

Não é para ser tratada como frescura, mas também não é algo para ser cuidado puramente com remédios. É algo que precisa ser tocado nas emoções das pessoas. A química é importante? Sim. A doença pode ser olhada como frescura? Não. 

A pessoa que tem depressão precisa de trabalhos que toquem o corpo, o coração, a mente e, para quem acredita, o espírito e a alma. 

Ficou interessado no trabalho da “A Arte de Ser Grande”? Então acompanhe os conteúdos produzidos pelo Rodrigo e pela Montserrat no Instagram e siga para saber quando rolam os próximos eventos da empresa!

Depressão não é frescura

Gostou da conversa? Então aproveita para ver algumas falas de especialistas, estudiosos e pessoas que convivem com certos distúrbios mentais ou tentam decifrá-los. No canal da Monja Coen você pode ver todos os vídeos da série “Depressão não é frescura”. Veja o teaser abaixo:

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