Como conviver com o vazio?

Como você vive o vazio?

Aos 18 anos tive uma viagem mística. A matemática que eu estudava na escola, cheia de certezas e sem margem pra loucura, de repente foi desmascarada. Ela própria se mostrou um território misterioso, filosófico e fascinante com a chegada de conceitos como “o erro” e “a tendência ao infinito” nas aulas da faculdade de economia. De repente a matemática se tornou a prova científica do mistério. 

Uma experiência mais completa desse mistério veio no mesmo período, quando descobri os cogumelos, o LSD e a cannabis, que no fundo o que faziam era me colocar num estado de amor muito poderoso. Essas substâncias logo foram perdendo o seu espaço para outro tipo de canal, a Arte. O cinema de Andrei Tarkovski, Akira Kurosawa, Ingmar Bergman, Win Wenders e Werner Herzog me provocavam a amar, sentir o amor em todo o corpo. Logo entendi tudo. Meu pai, Aloysio Raulino, era um desses caras, que se entregaram a decodificar o amor em som e imagem. E eu gostava disso. O mesmo mistério da matemática posto à prova, mexido e remexido, suspenso, rotacionado, e por fim, libertado da jaula do criador, lançado pro mundo. Os filmes do meu pai são de uma potência única na história do cinema. Esses caras viraram a pirâmide de ponta cabeça e a giraram até a transformar num gigantesco peão – (Criollo definindo Sabotage).

E assim comecei a fazer vídeos, os melhores vídeos, sei que eu posso, porque minha fonte de criação é o amor. Era como eu pensava. E fazia assim mesmo, ia filmar receita de bolo tomado por Tarkovski. Deu certo, porque assim foi surgindo a MOVA. Uma produtora de vídeos que emocionava. Certo dia, eu super ansioso pelo bendito feedback do cliente de um vídeo de receita de cookies, recebo a ligação. 20hs. “Gustavo, vimos aqui o seu vídeo e…”, meu coração já na boca, “… e o andar inteiro da revista está chorando”. Choro coletivo. Pronto, entendido. Eu estava mesmo no caminho.

Esse amor criado, cuidado, em som e imagem, já não pertencia só a mim. Mais pessoas chegavam para trabalhar na MOVA porque percebiam que ali a magia e o mistério estava presente o tempo todo. Trabalhos vão, trabalhos vêm, e a MOVA conhece a Monja Coen. O resultado desse encontro é o mega sucesso dela nas redes.  Mas nesse mesmo momento um fenômeno vertiginoso começou a acontecer. Uma nova linguagem dominante chegou com força romana, uma monocultura, uma febre: influenciadores, Youtubers que falam com a mesma cadência, mesma luz, vinheta, edição, gravando 5 vídeos por dia. Algoritmo do YouTube urrando de prazer. De repente o tesão em fazer um vídeo… puf… sumiu, foi enterrado vivo dentro de mim. Pra que fazer um vídeo elaborado, primoroso, super sensível, LEGAL, se uma pessoa olhando pra câmera e uma edição engraçadinha é mais barato e eficiente em marketing? E foi assim que eu me perdi. Me perdi legal. Toda aquela construção de quem eu era foi pelo ralo das saudades. O entusiasmo deu lugar ao medo. Medo de ser obsoleto, medo da concorrência, medo da MOVA não se pagar, medo dela se transformar em outra coisa que funcionasse melhor para o mercado, e por aí vamos. Caos mental e emocional. Pela primeira vez na vida fui fazer psicanálise. 

Meses depois, recuperadas as funções básicas do aparelho humano, comecei a me dar conta de que o mistério estava pedindo um pouco mais de mim. “Levanta essa bunda da cadeira e vem me procurar, seu preguiçoso”. “Mas se eu te procurar, como vou pagar as contas? Será que alguém vai me pagar pra isso?”. Tomado pela angústia, acuado, acovardado, comecei a ver o que? Claro, os tão úteis vídeos de Youtubers! E um deles me derrubou no chão, só levantei depois de umas três semanas. Pondé batendo um papo com o psicanalista Jorge Forbes no seu programa Democracia na Teia. Uma porta nova, belíssima essa porta, de bronze com detalhes em madeira, se fez na minha frente. Era o mistério de novo, me estapeando a cara pra que eu recuperasse a consciência, puxasse mais oxigênio na escalada da montanha nevada rumo ao mundo dos deuses. A investigação que ali começou foi parar na pós-graduação em psicanálise com o próprio Forbes, que comecei a cursar há poucos dias.

O que mais me fascina na proposta da psicanálise de Lacan e Forbes é a ética do artista como forma de existir. É inventar soluções criativas para o vazio existencial, o desconhecido, o mistério, e se responsabilizar por elas, assim como faz o artista. Forbes soma a Lacan a percepção aguçada do mundo pós internet, onde o indivíduo fica perdido na infinidade de opções e padrões de como viver sua vida e é obrigado a se arriscar, criar a sua expressão, a sua resposta para o vazio que é ser um ser humano. Nesse novo mundo, o autoconhecimento já não é suficiente, porque existe e sempre existirá uma parte de nós que nunca conheceremos, o Real de Lacan. A clínica lacaniana mostra que não tem porque esperar um saber maior, sobre o mundo e sobre nós mesmos, para finalmente alcançarmos aquilo que desejamos. Temos que criar agora e viver as consequências dessa criação. A grande pergunta aqui é: de que maneira eu encaro esse impossível, esse desconhecido (que nunca se tornará conhecido)? Com medo ou entusiasmo? Ansiedade boa ou ruim?

Os animais não fazem psicanálise porque não têm dúvidas. Sua essência está e sempre estará ali, do nascimento à morte. Não existe um guepardo Ayrton Senna ou um cupim Gaudi, eles sabem muito bem o céu que lhes cabe. Mas nós não sabemos. Nenhuma receita é uma boa solução. Se alguém quiser te vender 10 dicas de como ter uma vida mais equilibrada, leve e de muito sucesso, desconfie. Porque cada pessoa é artista de si mesma. Qualquer modelo é inibitório. Detona a subjetividade humana, que é a única coisa que nos resta. 

E hoje o tempo tá propício para criar e arriscar, viu? Você deve estar pensando, “é nada, tá tudo fodido, meio ambiente, política, economia…”. Mas não, olha só. A revolução digital deixou uma marca profunda nos nossos laços sociais. Isso porque após o surgimento da web o mundo deixou de ter um padrão único de como se deve viver a vida, seja esse padrão a Natureza, como na Grécia antiga, Deus, como na Idade Média ou a Razão, como no iluminismo e na consequente modernidade. Agora o bicho é outro, o pai já não é mais o provedor, tá começando uma startup aos 50 anos, assim como o filho. Tá namorando. E olha só que coisa mais linda, nesse novo mundo, nessa Terra Dois, como batizou Forbes, temos também um novo amor. Ao contrário do que rolava há poucas décadas atrás, as pessoas agora estão juntas porque querem, e não por causa da herança, do padre, da família, da religião, e por isso também se separam mais, porque de repente não querem mais estar juntas. Simples assim. Porque o amor não é certo como as leis da razão que antes moldavam a sociedade. Ele é fluido, sensível. E mais, diferente de outros tempos, aqui em Terra Dois esse tal amor é a grande transcendência, aquilo que nos conecta, aquela coisa maior que eu, da qual eu poderia morrer. Hoje a gente não morre mais por uma guerra ou pela revolução, mas morre por quem a gente ama. E a gente ama sem saber que ama, ou porque ama. Olha só que coisa mais maravilhosa: a nossa maior ligação é algo que não sabemos explicar. Mas é potente, muito potente. Eu te amo. Esse novo laço social é móvel e pantanoso, porque reside no amor e o amor não se explica. Mas é ele que nos dá contornos, limites, para que o narcisismo e o egoísmo não nos devore por dentro a cada scroll do Instagram.

E o que falar do trabalho nesse novo mundo? Você se satisfaz com o seu trabalho hoje? Está meio perdida em pensamentos do tipo quero ser mais livre, criativa, reconhecida, valorizada, desafiada, flexível, ter uma causa? Pois é, benefícios, bônus e um mega salário não são mais tão importantes quanto ter espaço para exercitar os talentos. Esse espaço é o que agora “retém” as pessoas nas empresas. Ainda dentro do tema trabalho, o que pensar da inteligência artificial? Para Forbes, existe quem pense que a máquina vai matar a espécie humana e devemos lutar contra ela desde já. Outros também acreditam no poder destrutivo do robô, mas ficam excitados ao pensar no extermínio humano. E existe quem pense que o ser humano não será suplantado pela máquina uma vez que a essência humana é o vazio, ao passo que a IA trabalha com dados, mas ainda assim precisaremos viver com ela, corresponder a ela. Para Forbes, a Inteligência Artificial libertará o homem do aspecto maquínico de nossas vidas. Interessante.

Para fechar esse artigo, trago as perguntas que ficam dessa ideia toda: Dá pra criar na impossibilidade do conhecimento total? Diversificar a forma de viver depois dos 40 anos? Renovar a curiosidade frente ao mundo? Esse que vos escreve acredita que sim, totalmente, porque não temos escolha. E para isso precisamos desistir de achar que o mundo é completo, porque ele só é completo para os animais, tão fortes e resilientes, mas não criativos (e frágeis) como o bípede cabeludo que somos. Cabe a nós explicar o mundo com uma razão que não nos foi dada. Inventar. É o único caminho. E incluir essa invenção no mundo, com responsabilidade ética para que o mundo não vire um inferno. O humor necessário para isso é o entusiasmo, porque é altamente arriscado, porque não te dá garantia alguma de onde vai te levar. 

E aí volta aquela pergunta miserável. Tá bom, mas como eu pago minhas contas sendo artistão assim? Bom, a gente faz perguntas já sabendo as respostas. E a minha resposta é: sei lá, pode ser que não dê pra pagar mesmo. Mas se essa criação engrandecer a humanidade é muito provável aconteça uma troca, seja ela de dinheiro ou de amor. E precisamos dos dois para sobreviver. 

Segue assim o mistério da existência. 

E que alimento para novos vídeos, músicas, artigos, posts… 

Obrigado, Forbes. Vale a pena fazer arte. 

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