Sentidos da Criança - Gandhy Piorski

Conversas com Gandhy Piorski: Os Sentidos das Crianças

Confira mais um bate-papo da MOVA com o pesquisador

Qual é o sentido da vida? 

As respostas para essa pergunta são as mais complexas possíveis, especialmente por envolver diversas particularidades consequentes das individualidades, crenças e pesquisas de cada adulto. Sim, adulto, pois com as crianças a história é outra…

Enquanto os adultos buscam explicações para os sentidos da vida, as crianças estão experimentando todos eles. Os pequenos não ficam tentando entender qual seria o significado da existência, eles vivem. 

No livro “21 Lições para o Século XXI”, Yuval Noah Harari afirma que ao buscarmos o sentido da vida estamos querendo encontrar uma narrativa que explique o que quer dizer realidade e qual é o nosso papel particular no drama cósmico. Papel esse que traria significado a todas as nossas escolhas e experiências, no tornando parte de algo maior.

Ou seja, através de cenários idealizados a partir da imaginação, buscamos verdades para justificar a realidade. Enquanto isso, as crianças estão muito mais interessadas em como criar novas realidades com base nas próprias imaginações. Convenhamos que é muito mais interessante e divertido. 

E os sentidos têm um papel fundamental nesse desenvolvimento da mente infantil. E agora não estou falando mais de sentido no contexto de “propósito”, mas sim no que envolve sensações (sentir algo). 

Para falar sobre o assunto, ninguém melhor do que Gandhy Piorski! O pesquisador protagonizou a série Primeira Infância no Canal MOVA e defende muito o reconhecimento de sentidos pelas crianças. 

Bati um papo com Gandhy e você confere a conversa abaixo:

A infância representa uma fase de descobertas. Qual é a importância das experiências sensoriais durante a infância?

É uma vinculado com o corpo da criança. Esse tempo de descobertas só pode ser vivido pelo corpo, e quanto mais o corpo se relaciona com as coisas, mais a criança descobre. A vida sensorial guarda essa possibilidade de perceber a inteireza do próprio corpo, mas também de se relacionar com a inteireza das coisas próprias, do que é próprio nas coisas. Trabalhar a profundidade sensorial na criança é abrir caminho para que a criança se relacione com mais abertura e interesse no que é o fenômeno do mundo, a essencialidade de cada coisa. É a possibilidade de se vincular ao que é essencial do viver.  

As crianças começam a entender mais sobre os próprios sentidos de uma forma prática ou isso é ensinado pelos pais?

As duas coisas. A criança vivendo e investigando com liberdade, algo que precisa ser reconhecido pelos pais, ela já começa a compreender mais sobre seus próprios sentidos. Não logicamente ou conscientemente, mas no modo de adentrar a substancialidade dos materiais, do som, da palavra, da músicas, das formas arquitetônicas, dos elementos da natureza. A criança tem condição por si de criar esse aprofundamento sensorial nas coisas e em si, pois uma repercute na outra. Mas os cuidadores da criança têm a responsabilidade de favorecer isso. A criança precisa lidar com elementos naturais e os pais precisam estimular um relacionamento das crianças com aspectos fundamentais da nossa cultura, para que elas tenham contato com elementos que nos fundamentam: culturas populares, literaturas universais, lendas, mitos, música brasileira, música clássica, etc. A família colabora muito com esse aprofundamento sensorial. 

Como os sentidos das crianças podem ser relacionados com a imaginação delas?

Ao brincar com a lama, por exemplo, a criança sente uma repercussão no próprio corpo. Aquela forma de ser da lama, a matéria mole, em que o corpo pode movê-la e se relacionar com ela sem nenhum tipo de embate, é mais acolhedora, então isso repercute na sensorialidade tátil da criança. E o tato percebe a natureza maleável e receptiva daquela matéria, e isso tem uma repercussão na subjetividade da criança. A matéria tem uma pedagogia. A subjetividade da criança reconhece ou desperta nela própria os valores do diplomático, daquela matéria que a criança pode mover de um lado pro outro que ela se faz receptiva. Mas ela não fica exatamente onde a criança quer. Isso acorda um campo, imagens e sentidos no ser da criança. 

Algum sentido costuma ser mais admirado pelas crianças ou é algo que varia do momento e da pessoa?

As crianças são fundamentalmente auditivas e táteis.  Na primeira infância, em especial, a audição e o tato têm um papel muito importante na vida imaginadora da criança, na construção de significados que elas vão abrindo. Claro, elas também são muito visuais e observam tudo, mas se observarmos, a visão delas é tátil. Quando mostramos algo para a criança ela fala que “quer ver” e estende a mão. Ela quer ver tocando, chegando perto, se vinculando. Já o auditivo tá muito ligado às histórias que são contadas, às palavras. Conforme elas escutam sons, vão construindo as próprias falas. As crianças estão muito atentas à oralidade do mundo. Todos os sentidos trabalham em conjunto, mas eu diria que esses dois, audição e tato, possuem grande vitalidade na primeira infância. 

Fala-se muito sobre os cinco sentidos de um ser humano (tato, paladar, olfato, visão, audição), mas alguns pesquisadores defendem que somos muito mais complexos do que isso. Podemos dizer que temos mais de cinco sentidos? 

São muitos sentidos. A neurociência e as tradições espiritualistas falam de muitos sentidos. A neurociência tem descoberto micro sentidos em partes do corpo. Mas esses cinco, quando estimulados, vão alcançando uma gama de outros sentidos desses tantos que se falam. E há quem diga, desde a antiguidade, que tudo se resume ao tato. Os cinco sentidos ainda são um território de investigação e aprofundamento no corpo da criança. 

O que as escolas podem fazer para estimular os mais diversos sentidos das crianças?

As escolas têm que deixar de ser escolas, quem sabe assim estimulem e compreendam que a vida é uma organicidade, uma teia de expressões e códigos comunicacionais, e não um compartimento de conhecimento. A arquitetura está diretamente ligada ao corpos das crianças, o som e ambientação acústica também, assim como o uso da palavra e o cultivo dos campos estéticos. Nada disso as escolas cultivam e aprimoraram. Talvez deixando de ser escolas a gente consiga encontrar uma via de contato das crianças com seus próprios corpos de modo mais verdadeiro. 

Como é a relação das crianças com o sentido da vida (nesse caso, sendo “sentido” um propósito de vida)?

As crianças querem reencantar a vida. Elas não querem deixar o mundo decair na decrepitude do cotidiano, dos ideais da modernidade que se resume à produção, consumo e acúmulo. As crianças querem plasmar uma nova vida na vida. Querem reabrir a vida no seu encanto iniciante. A imaginação da criança trabalha nas bases desse originário, por isso apresenta tantas questões filosóficas e perguntas sobre as origens. Elas estão modulando novos significados. 

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