SENTIDOS DA VIDA (1)

Eu sei que você quer ser mais útil!

Será que alguém ainda consegue usar seu tempo pra se entregar pra alguma coisa sem saber no que vai dar?

Será que eu consigo começar a escrever um texto sem saber no que vai dar? Será que alguém vai seguir na leitura sem saber no que isso vai dar?

Recebi uma vez uma dica útil de como fazer posts no instagram: respeite o tempo da pessoa.

Porque a pessoa tem pouco tempo. E muita informação pra lidar. Nesse tempico que a pessoa vai ter contato com o conteúdo que você tá oferecendo, ela precisa extrair disso algum valor pra vida dela. Fazer conteúdo inútil é um desrespeito com o tempico da pessoa.

Então: seja útil!

E você só tem três segundos.

Um herói, esse que nos oferece essa dica tão…  útil. Os comentários exprimem gratidão. Por que não pensamos nisso antes, o tempo todo, desde sempre? E eu também fico grata de imediato, claro. “É lógico que eu quero ser alguém que respeita o tempo das pessoas”. Ló gi co. Respeito é um dos meus valores. Salvo o conteúdo até.

Agora, sentada aqui pra escrever esse artigo, relendo o conteúdo salvo, um embrulho no estômago. O que é isso? Será que meu café da manhã caiu mal? Sigo.

Como começar esse texto?

O que tenho de útil pra dizer?

Minha linguagem própria parece ter se perdido em meio às necessidades do algoritmo, SEO, copywriting… uma série de gatilhos psicológicos que a gente descobriu e transformou em método para manipular a nós mesmos, para que a gente compre e venda mais… sim.

Agora, além do embrulho no estômago, sinto também uma pontada na cabeça que faz minha testa franzir e meus olhos apertarem.

O que meu corpo quer dizer com isso?

Percebo minha respiração um pouco presa.

Aaah, corpo, tá bom vai… não faço tanta meditação assim na vida pra fingir que eu não tô percebendo isso, então vamos lá… pegando ar, descendo para a próxima camada em direção às profundezas. O que meu corpo quer dizer com isso?

Será que essa dica faz sentido pra mim? 

Sendo honesta comigo mesma…

Não. (nossa, foi fácil, foi rápido)

Quer dizer, sim. (opa, pera) Respeito é um dos meus valores.

Mas não. (não, não assim, não mesmo)

Vamos lá, avançando mais em direção ao fundo escuro… Por que não?

O que está me intrigando, o que está embrulhando meu estômago nesse pensamento é: por que mesmo a gente só tem esses tempicos? Por que mesmo consumimos tanta informação?

Ligando equipamentos de oxigênio. 

Será que o fato de eu ter que ser útil para alguém não reflete uma necessidade de que esse mesmo alguém seja útil para outro alguém?

Afinal, o nosso herói do copywriting “foi útil” para mim, para que eu também pudesse “ser útil” para outras pessoas, para que elas talvez possam… (complete você mesmo)

Nossa, já não sei se quero descer mais.

Um ciclo sem fim de copywriting da vida? Meu storytelling pra eu ter mais valor de mercado? Pra eu ser mais útil… pra quem mesmo?

Uma foto minha no pôr do sol, escolhida entre 37 tentativas que eu odiei, com legenda motivacional sobre amor próprio? Sobre acolher meus medos? Sobre não desistir dos meus sonhos? 

Pra quem mesmo?

Pro meu cliente? Pro meu seguidor? Pra alguém que eu amo? Pra alguém que eu quero que me ame? Pra mim mesma? 

Pra eu amar mais a mim mesma?

Uou. Já não consigo saber pra que direção voltar à superfície. Respirando fundo só pra testar se esse equipamento é seguro mesmo.

Ser útil para mim mesma seria: eu preciso a todo momento resolver algum problema. Seja um problema que eu esteja vendo fora ou dentro de mim. 

Beleza, parece certo isso. Problemas são coisas ruins, precisam ser resolvidas.

Mas… 

Se eu preciso resolver algum problema é porque tem algo errado no meu agora e o futuro tem que ser melhor. Então, no meu agora, vou me dedicar ao meu futuro! Bingo! Ótimo! É o melhor que eu posso fazer com o meu tempo!

Será?

Será?!

Constantemente nadando cachorrinho contra a correnteza da ideia de que em algum momento do futuro eu preciso ser mais útil pra mim mesma e pro mundo? 

Haaaah (grande suspiro embaixo d’água com bolhas) são tantas perguntas (já foram mais de 30) e até agora nenhuma resposta.

Sendo honesta comigo mesma… eu acho que: 

quando eu faço um conteúdo pensando: 

no que o algoritmo vai valorizar, nos problemas que as pessoas têm que resolver, em como vou capturar a atenção delas, em como vou mostrar o caminho da solução para elas (porque afinal elas não conseguiriam chegar sozinhas em suas próprias respostas, elas não se dão tempo de chegar sozinhas nem nas suas próprias perguntas) e: 

ao mesmo tempo: 

em como vou respeitar o tempo delas sendo o mais direta possível para que elas não tenham que pensar tanto e possam passar mais rápido para a próxima dica que é também tão útil: 

não estou pensando de verdade nas pessoas. Falei. 

Porque não estou respeitando de verdade a humanidade das pessoas.

Hum… estou tocando uma pedra aqui embaixo, talvez?

Ser humano é ser naturalmente potente, criativo, vital, expressivo, compassivo…

Eu sei disso. Talvez você também saiba disso. Na teoria. E mesmo assim às vezes parece que tudo isso sumiu de dentro de nós e a gente se depara com um monte de camadas turvando a vista da nossa naturalidade, como se a gente estivesse no meio de uma neblina, todas essas capacidades inatas sumidas do nosso horizonte de possibilidades. Não sei você, mas eu fico procurando, procurando… Cadê a minha potência? Cadê minha criatividade? Cadê minha vitalidade? Cadê minha linguagem? E é só neblina neblina.

Eu lá dando scroll frenético no instagram, procurando me encontrar com as respostas dessas perguntas ali?

E é aí que eu escuto uma voz sussurrando na minha cabeça: enquanto você faz uma leitura dinâmica de mais um conteúdo que apareceu no seu feed (F E E D!!), Mariana, eu vou falar algo aqui no seu ouvido como se fosse um segredo, presta atenção:

É você que tem que respeitar o seu próprio tempo. 

Por que você tá lendo essa merda?

Por que você tem que ler tantas merdas?

O que você tá buscando?

Você tá escolhendo aquilo que você tá consumindo?

Você tá escolhendo aquilo que tá te consumindo? 

Você não quer perder nada? 

Onde você está agora?
Você lembra como chegou até aqui?

Por que você não para um pouco?

O que acontece quando você para?

Agora você tá pensando ser alguém que se entope de informações novas (tantas que você nem consegue processar) só pra não ter que sentir as coisas que você sente?

E o que você está sentindo agora com esse pensamento?

Culpa?

Você não queria ser essa pessoa que foge dos próprios sentimentos né? 

Você preferia ser diferente né?

E por acaso você está sentindo essa culpa apenas para não ter que sentir alguma outra coisa mais difícil de sentir?

Talvez um…

Medo de ter que ser você mesma?
Medo de ser você mesma e as pessoas não darem like?
Medo de tentar ser você mesma e não saber quem você é?

Medo de tentar descobrir quem você é e não chegar numa resposta fácil e rápida e útil?
Medo de não ser ninguém?

Medo de não ser nada?

E por acaso… agora…  você está sentindo tudo isso 

e pensando 

e pensando 

e consumindo esse conteúdo 

e o anterior 

e o próximo 

pra não sentir 

O VAZIO?

Opa, o que aconteceu aqui? Eu quero voltar! Alguém me ajude a voltar para a superfície! Estou sem ar!

Calma, Mariana. Eu te dei um equipamento de oxigênio pro seu mergulho, chamado “pulmão”. Apenas observe que você está respirando. 

O ar entra. O ar sai. O ar entra. O ar sai. 

Sua consciência é como o céu, ampla e clara. Cabe tudo dentro de você. Você consegue sentir todo o seu sofrimento e, ao mesmo tempo, todo o sofrimento do mundo. Tudo cabe.

Você é um ser naturalmente compassivo, naturalmente vai tender ao equilíbrio. Então o que você precisa fazer?

Nada?

Exatamente. Fazer nada para que essa natureza compassiva e equilibrada possa se revelar. 

O ar entra. O ar sai. O ar entra…

Pausa para um comercial em que eu vendo para você o caminho que eu mesma descobri e que torna qualquer pessoa mais perfeita: 

A utilidade pública de hoje é: 

O QUE VOCÊ PODE FAZER PARA TER UMA RELAÇÃO MAIS SAUDÁVEL COM O INSTAGRAM? em 7 passos. 

  1. SEJA RADICALMENTE HONESTO COM VOCÊ MESMO

    Siga essa única regra em cada próximo passo.

  2. OBSERVE O QUE TE FAZ MAL

    Observe, no seu feed, quais são as publicações que fazem você pensar que está:  atrasado na vida, pouco equilibrado, pouco disciplinado, pouco magro, pouco escritor, pouco fotógrafo, pouco socialmente engajado, pouco criativo, pouco resolvido, pouco iluminado, pouco produtivo…

    Observe o que te causa inveja, o que te faz perder tempo, o que nunca retém sua atenção e o que te desperta ódio.

    Observou? Próximo passo.


  3. FAÇA UMA LIMPEZA

    Deixe de seguir todas essas contas.

    É isso mesmo.

    Deixe. Apenas deixe. Deixe sem dó, deixe sem medo.

    Faça isso por você.

    Na minha primeira limpeza eu passei de quase mil contas para cento e poucas. Depois de um tempo fiz esse processo de novo e agora só sigo 28.

  4. ENCONTRE OURO NO SEU FEED

    Tem alguma coisa aí no seu feed hoje que está realmente nutrindo o seu desenvolvimento. Identifique essas contas.

    Você pode descobrir que são bem poucas, talvez cinco ou três. Talvez nenhuma.

    Isso pode mudar daqui dois dias e tudo bem.

    Já observei que é raro eu precisar me nutrir de mais de duas ou três contas pra minha atual necessidade de desenvolvimento.
  5. MUDE SUA RELAÇÃO COM O INSTAGRAM

    Cultive uma relação ativa com o instagram.

    Ao abrir o instagram experimente entrar diretamente no perfil dessas contas ouro que você identificou.

    O que tem pra você ali hoje? Leia uma única coisa. Permita-se descobrir o tempo e o espaço que você precisa para assimilar e processar cada informação. 

    Outra ideia: utilize o instagram como uma espécie de oráculo. Entre e leia apenas a primeira publicação que aparecer no topo do seu feed. Agora que você só segue contas legais, isso pode te surpreender.

    Consegue?

     
  6. TORNE-SE UM USUÁRIO CONSCIENTE

    Depois de seguir esses passos, você vai ter uma experiência bem mais profunda com os conteúdos do instagram e talvez, em algum momento, você se perceba cansado, sem condições de se aprofundar muito em nada, mas querendo dar aquele scroll em bobagens só pra… ficar um pouco mais cansado.

    Tudo bem. Você sempre pode explorar por horas com a ferramenta…  explorar.

    Mas agora você faz isso com consciência.

    Você sabe que está escolhendo fazer E você continua cultivando uma relação mais ativa com o instagram.

  7. ACORDE A SUA PRÓPRIA CRIATIVIDADE

    É aqui que eu te convido a ESQUECER TODOS ESSES PASSOS E DESCOBRIR SOZINHO O QUE VOCÊ MESMO PRECISA PRA RESPEITAR MELHOR O SEU TEMPO.

    Porque esse foi o meu processo e você vai ter o seu.

    Confie: a mente que formula a pergunta sempre tem a resposta. Essa foi a pergunta que eu fiz a mim mesma, qual é a sua?

    Qual é a sua pergunta?

Gostou das dicas? Deixe seu comentário.

Não, apenas faça o que seu coração mandar.

Faça nada. Você não precisa fazer nada, apenas perceba que está respirando.

Respeitar a humanidade das pessoas, pra mim, é respeitar e acolher o fato de que a vida não se resolve

Não, não é a MINHA vida ou a SUA que não se resolve. 

A VIDA mesmo é que não se resolve.

Isso não significa que você não vai se desenvolver. Mas significa que você não tem tanto controle assim do seu próprio desenvolvimento.

Você pode soltar a tentativa de controle, tornar-se um observador que vê a onda da mudança chegando e apenas permite que ela passe. 

A mudança também é natural da nossa própria… bom, da própria natureza. 

O quanto nossa tentativa de ativamente resolver um problema nosso ou do outro, com uma solução vendida ou comprada, não é, na verdade, uma resistência à real mudança que está pedindo para acontecer?

O quanto a nossa louca busca por respostas fáceis, soluções propostas por outras pessoas que tiveram outros processos, não é, na verdade, uma resistência a sustentar nossa presença no espaço desconfortável de uma pergunta em aberto?

Desenvolver-se não é passar de uma resolução de problema a outra. Não é encontrar respostas para nossas perguntas. O aprendizado não é lógico como fomos ensinados na escola: aprenda isso aqui – causa e consequência, agora faça uma prova pra saber se você entendeu a lógica. Não. 

Eu não resolvi minha questão com o instagram fazendo aquele processo, apenas criei uma relação nova que me trouxe novas…  perguntas. Com as quais eu tive que sofrer novamente e sentar diante desse novo (ou velho) sofrimento, testemunhá-lo em vez de rejeitá-lo, e confiar que aquilo cabia dentro de mim.

E aí, quando eu não fiz nada, além de ficar presente com aquele sofrimento, com aquelas perguntas abertas, algo natural emergiu de mim: compaixão.

“É assim que os seres sofrem”

“Estamos todos apenas buscando ser felizes ainda que do nosso jeito torto”

E então… uma clareza: eu posso escolher o que fazer diante disso ao invés de reagir desesperadamente em rejeição ao meu sofrimento.

Vou escrever sobre isso. Vou encontrar minha linguagem aqui pra depois perdê-la de novo e encontrá-la de novo em algum outro lugar.

Qual a linguagem que eu posso encontrar, não para me expressar melhor, mas para escutar melhor? Para escutar aquilo que não tem nome ainda, que não tem tradução?

Eu não sei. Qual é? Eu ainda não sei. Mas eu escrevo esse texto procurando. Encontro pistas. Mas eu ainda não sei.

E é assim. 

E dá pra ser feliz assim. 

Porque a felicidade não está em nenhuma condição (se eu for mais… quando eu tiver tal… se eu conseguir parar de… se as pessoas me… quando eu conseguir terminar esse texto e as pessoas gostarem… quando eu mesma gostar dos meus textos… )

A felicidade está nessa mente ampla como o céu, onde cabe tudo. 

A vida de ninguém é pra ser resolvida. 

A vida não é pra isso. 

A vida contém os problemas e as alegrias. O crescimento que nos preenche e as crises que fazem parecer que tudo aquilo que nos preencheu é falso. Que todas as respostas encontradas estavam erradas. E a superação da crise com um novo crescimento, novo preenchimento, nova resposta, nova pergunta. E… o vazio. 

Estamos todos apenas buscando formas de lidar com esse vazio.

hããah (suspiro na superfície quando você volta daquele mergulho na cachoeira gelada)

O vazio de não saber pra quê é mesmo essa merda?

“Que eu possa fazer o bem a muitos sem nem mesmo jamais saber.”
– Wilbur Wilson Thoburn

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