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Na Terra ou em Marte, nós precisamos de ajuda.

Caro (a) leitor (a), 

Não sei em que ano e local você está lendo esta carta. 

Pode ser que esteja em Marte, anos à frente da data de publicação deste texto. 

Se estiver, saiba que provavelmente tem alguém por aí precisando de ajuda.

Eu estou em 2020 e as coisas não vão bem por aqui. 

Em um mundo com 8 bilhões de pessoas, eu faço parte de algumas minorias, dentre elas uma minoria com 264 milhões de guerreiros que sofrem. Sofremos constantemente e muitas vezes não sabemos sequer os motivos das dores e dos vazios que causam tamanho sofrimento. 

Pelo menos o fator principal eu sei bem qual é…

Basicamente é uma doença psiquiátrica e crônica que muitos consideram como frescura ou preguiça, mas definitivamente não é. A lista de sintomas é gigantesca e bastante variável de uma pessoa para outra, só é triste ver que a maioria da população que não sofre com essa patologia mais atrapalha do que ajuda. 

Eu não aguento mais o descaso. 

Eu não aguento mais a indiferença. 

Eu não aguento mais o sentimento de pena.

Eu não aguento mais o deboche.

Eu não aguento mais tanta coisa…

Na verdade, eu ainda aguento, pois sou muito mais forte e resistente do que essa maioria aparentemente saudável. Apesar de já ter pensado em acabar com tudo, não estou atualmente em um estágio muito avançado, e isso é bom, primeiro porque me mantém vivo, segundo porque me dá mais disposição para lutar pelos meus semelhantes enfrentam níveis mais graves. 

Desejo ser feliz e desejo que os outros sejam felizes, o problema é que a tristeza tem sido persistente. Até assisti a um filme que dizia para abraçarmos a tristeza, e confesso que comecei a refletir sobre isso. Tanto que depois disso vi outros filmes e outras séries envolvendo minha doença, até mesmo aqueles que a abordavam de uma maneira discreta.

Minha maior identificação? O Doutor Manhattan, de Watchmen.

Se até aquele ser extremamente poderoso precisou se isolar em Marte para fugir do preconceito, das mentiras e da sensação de vazio, eu também posso me permitir ter momentos solitários, mesmo ainda estando na Terra.

Quando entendi isso, comecei a me sentir melhor.

No caso, não comecei a melhorar só por isso.

Também tomei remédios.

Medicamentos fortes que fizeram efeito. Pelo menos até o momento. Nunca se sabe até quando. 

Além disso, entrei para a terapia. Como é bom colocar as coisas para fora e tentar compreender meus sentimentos. Meu terapeuta é meu ídolo, pois ele conseguia abordar temas extremamente delicados comigo a partir de brincadeiras e piadas. Hoje posso dizer que sou fico muito feliz durante a terapia. Finalmente compreendi que precisava mudar a minha química interna, e só os remédios não adiantariam nesse processo. Apesar deles também serem fundamentais, pelo menos no meu caso. E assim virei o ídolo do meu terapeuta.

No entanto, ainda sinto falta de algo. 

Sinto que preciso de uma dose completa de empatia.

O problema é que não acho essa medicação para comprar. Está em falta há anos. Por sorte, tenho a sensação de que você ainda tem um pouco dela. Será que poderia oferecê-la a mim e aos meus colegas de luta? 

Eu prometo que ficaremos muito gratos. 

Certa vez o Doutor Manhattan (sim, ele de novo) disse que um corpo vivo e um corpo morto contêm o mesmo número de partículas. Pode até ser verdade, mas um corpo vivo representa muito mais do que partículas. Talvez ele fale isso porque vive em um local aparentemente sem vida, como Marte, e não se incomoda com isso. Talvez ele também precise do seu apoio. 

Mas a verdade é que eu não sei se existe em Marte e nem posso me preocupar com isso, pois por aqui ainda temos muitas vidas. E várias delas precisam do seu respeito e do seu carinho. 

Não sei em que ano e local você está lendo esta carta. 

Pode ser que esteja na Terra, em 2020. 

Se estiver, saiba que nós precisamos de ajuda.

E de doses cavalares de empatia.

Atenciosamente,

Uma pessoa querida.

Depressão não é frescura

Gostou da carta? Então veja agora algumas falas de especialistas, estudiosos e pessoas que convivem com certos distúrbios mentais ou tentam decifrá-los. No canal da Monja Coen você pode ver todos os vídeos da série “Depressão não é frescura”. Veja o teaser abaixo:

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