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Ressurreição é de dentro pra fora

Em algum momento talvez do ano de 2015, Gustavo, meu atual companheiro de vida, pai dos meus três filhos, era apenas um amigo querido, parceiro de trabalho, e me convidou para ir com ele ouvir a fala de “um cara muito incrível” sobre infância, o brincar e o imaginário. Ele falou com tanto entusiasmo sobre a pessoa, que foi por isso que eu fui. Era o Gandhy, fazendo uma visita à São Paulo. 

Só na hora eu entendi realmente do que se tratava. O Gustavo estava gravando a fala (como quem cumpre uma missão de vida), para colocar no nosso então incipiente canal MOVA, nos tempos meio primordiais do Youtube. Mesmo assim, eu devo ter anotado tudo em algum caderno que me acompanhava na época, porque queria garantir que aquilo estava se gravando dentro de mim. 

Foi assim ali que, muito antes de ter filhos e de me interessar por infância de forma mais óbvia, Gandhy me fez olhar para minha relação com a imaginação. Eu reconheci minha criança interior naquela fala, a partir da forma como ele desenrolava a relação entre a corporeidade externa e interna nas brincadeiras da criança que todos fomos e somos.

Aquela “palestra” (que você também pode assistir aqui) tem permanecido viva em mim desde então. E de tempos em tempos meu corpo pede para revisitá-la. É sempre um abrir de um novo portal.

O tempo foi seguindo seu curso, encontramos com o Gandhy algumas vezes sempre procurando um jeito de construir algo juntos. Por algum motivo esse algo não se configurava. Acho eu que estávamos presos à ideia de que esse algo deveria ser muito bem pensado, ter sua magnitude à altura da nossa admiração. E nunca estávamos prontos. Até que chegamos em 2020. 

Na MOVA, estávamos buscando por um movimento de assumir nossa missão coletiva. Tínhamos passado os últimos anos focados em clientes e conteúdos com a Monja Coen, mas sabíamos que algo mais amplo e mais autoral estava chamando e que tinha chegado a hora. Eu estava no período de licença maternidade dos gêmeos. A MOVA mudou de sede. Eu fiz uma série de conversas com as pessoas sobre a minha volta à atividade. Estava preocupada, na verdade até um pouco desanimada, porque sentia dentro de mim que alguma coisa não fazia mais sentido e que eu ia acabar descobrindo isso assim que voltasse. O que eu ia fazer? Acho que foi na semana seguinte que tudo começou. Não cheguei a pisar na nova sede para trabalhar. 

Não sei como aconteceu de finalmente acontecer, mas marcamos uma conversa com o Gandhy como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Contrariando todo o nosso exaustivamente construído “processo MOVA” de criação de conteúdos, eu não fiz roteiro nenhum, proposta criativa, nada. Cheguei lá na sala online e falei sobre como eu tava me sentindo com aquilo tudo. Eu nunca tinha pensado em guiar ou aparecer em nenhum conteúdo, estávamos sempre por trás das câmeras. Achei que ia editar tirando as minhas falas todas ou nem pensei em como ia editar, na verdade. 

Tudo sobre esse projeto veio como que ao contrário da lógica a que estávamos acostumados. Tudo sobre esse projeto veio de dentro para fora. A cada semana a mais que adiamos o lançamento porque o projeto chamava por um movimento novo, como o eBook Histórias de Ressurreição, por exemplo, eu aproveitava para aprofundar na construção da linguagem. Não queria que fosse mais uma “live de quarentena” gravada. E queria me relacionar com aquele material profundamente. Então foi assim que ele foi se criando, de forma totalmente orgânica e íntima. Não que não tenha custado algumas doses de angústia-do-desconhecido na equipe toda. Realmente chacoalhou as bases junto com o contexto todo e eu, que já estava ressurgindo como uma vertiginosa mãe-de-de-repente-três, comecei a ressurgir em mim. 

No meio desse processo, encontramos aqui em casa uma lagarta verde num maço de acelga que veio do supermercado. Inspirada pela conversa com o Gandhy, coloquei ela num potinho e a cada dia alimentava ela com uma folhinha nova de alguma verdura. Meu filho mais velho acompanhou seu crescimento ao longo de umas três semanas. Até que um dia ela foi ficando meio preta, achei que ela estava morrendo. Mas estava virando um casulo. Ficou assim por mais ou menos uma semana, durante a qual eu pensava o tempo todo que ela devia estar mesmo morta. No dia que o casulo se abriu, não sei explicar o que senti. Ela era uma mariposa pequena e horrenda, meio peluda. Ficou um tempo parada no pote e no fim da tarde voou para a luz da cozinha. Fiquei com um misto de fascinação e receio de que ela voasse perto de mim. Meu filho viu e nos surpreendeu, de forma um tanto asquerosa devido ao caráter da mariposa, dizendo que iria comê-la. “Martim a cumê maiposa”. Hoje penso que era o jeito dele de querer internalizar o processo que ele viu acontecer. 

No projeto, fomos criando aos poucos um ecossistema em volta dessa conversa: além do eBook, fizemos trechos para o Youtube, pílulas para instagram, facebook e whatsapp, artigos relacionados aqui no site. Porque queremos proporcionar a todos a internalização dessa ressurreição que estamos vivendo como corpo social, como se pudéssemos comer a mariposa. 

Espero que todos possam criar uma relação de intimidade com essa força de ressurreição, assim como foi para nós criá-los. E que possam identificar essa força em várias dimensões da vida com a ajuda desses conteúdos sobre ensino, infância, tempo, interioridade, micropolítica, arte, etc.

Para mim, lançar esse projeto hoje é exatamente como quando a mariposa voou para a luz. 

Agora, a MOVA começou a ressurgir também como uma outra coisa que ainda não sabemos. Estamos meio perdidos. Mas sabemos que tudo parece mais integrado. Sabemos que os movimentos estão vindo de dentro para fora. E, sinceramente, não sabemos muito bem onde vai dar. 

Mas aqui está: um primeiro passo. 

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